quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Justin Bieber - Idolatria pueril e o culto ao descartável no 'Z Festival'


12 de outubro, dia das crianças. Nada mais adequado para a ocasião do que um aglomerado com shows de ídolos teen destinados a jovens histéricas na flor da puberdade, sedentas por contemplar artistas de um modismo cada vez mais passageiro e carente de conteúdo musical com qualidade.

Neste feriado, impus um desafio a mim mesmo: assistir ao tal “Z Festival”, que aconteceu no estádio do Morumbi, em São Paulo no dia 08/10/2011 e que foi exibido pela Rede Globo nesta tarde. O evento, entre outras atrações, contou com o show do ídolo teen mais querido da garotada atualmente – Justin Bieber. Antes dele, porém, tive o (des) prazer de assistir aos três artistas que antecederam a apresentação principal. Vamos a eles...

A abertura ficou a cargo de um dos ‘ícones’ do movimento emo – a banda Cine. Apesar de formada por bons instrumentistas, a banda composta por Diego, Bruno, Dan e David coloca tudo a perder com arranjos e letras que de tão infantis beiram ao constrangimento, fato esse que com certeza passou despercebido para o grupo de adolescentes que presenciaram a apresentação do grupo no evento. Aliás, qual a diferença entre o Cine e outras atrocidades emo como Restart, Strike, NX Zero e outros menos cotados? A falta de identidade própria talvez seja um dos principais motivos para que eles não sejam levados a sério por qualquer pessoa que tenha um mínimo de bom gosto musical.




Logo após, surge um tal de The Wanted, uma compilação do que de pior já existiu em termos de boy band’s, vomitando arremedos de vocalizações já feitas anteriormente por grupos como Backstreet Boys e N’Sync. A falta de carisma e de presença de palco dos caras é tanta, que eles nem tiveram o trabalho de elaborar aquelas coreografias cafajestes apresentadas pelos ‘pais’ do estilo, citados acima. Próximo...




Criado com o único propósito de animar baladas de playboys e patricinhas embalados por bebidas como Big Apple e conduzidos pelo ‘Ecstasy’ do momento, entra em cena o Cobra Starship. Apesar da beleza da vocalista e tecladista Victoria Asher, o grupo não convence, e ao ouvir o grupo, é inevitável a sensação de estar em uma boate apertada cercado de gente querendo se pegar. Destaque para a impressionante falta de técnica do baterista Nate Novarro que, nos refrãos de “You Make Me Feel” o cara parece bater em sua caixa como se estivesse tocando tambores em uma tribo de canibais aborígenes, o que não deixa de ser uma tremenda ofensa aos primitivos (os canibais, claro).




Contagem regressiva: 5, 4, 3, 2... 1! É chegado o grande momento do evento. Momento este fruto de choros incontidos, gritos desenfreados e até mesmo leilões de virgindade – como esquecer da jovem mexicana que, dias antes de um show do jovem astro, colocou sua virgindade à venda para comprar ingresso para o show – o Morumbi vai abaixo com a entrada de Justin Bieber no palco. Dois aspectos são interessantes destacar:  o fato de um astro com apenas desessete anos de idade cantar todas as músicas em um tom abaixo do que foi gravado em disco ainda é um mistério para mim. Outros artistas, beirando a aposentadoria e em idade já avançada ainda conseguem cantar todo o seu repertório na afinação em que foram gravados. O segundo detalhe é a predominância de playbacks ao longo de praticamente TODA a apresentação, o que poderia soar contraditório em relação ao primeiro detalhe observado, mas que só confirma o fato de que J.B., assim como vários outros artistas da cena musical atual são criados em estúdio por ‘produtore$ e$pertalhõe$’, onde o Pro Tools dita as regras e afina a voz de qualquer porcaria gravada. Mas voltemos ao show...

O decorrer da apresentação chega a beirar a vergonha alheia, tamanha é a canastrice do show. Entre mais lágrimas do público, Bieber desfila uma sequência de suas músicas, sem abandonar os playbacks, interpretando coreografias que fariam qualquer professor de dança se envergonhar profundamente, além de uma banda de apoio tão ruim quanto o artista principal, à exceção do bom guitarrista Dan Kanter que, com sua Les Paul modelo Zakk Wylde, poderia ter mais destaque no show, se não fosse soterrado por uma infinidade de sons pré-gravados e por uma equalização deficiente. J.B. canta (dubla) sucessos de sua carreira como 'Love Me', ‘U Smile’, 'Eenie Meenie' e outros com uma impressionante falta de qualidade.




Em certa hora do show Justin, empunhando um violão faz uma espécie de duelo flamenco com Dan Kanter, em um domínio canhestro do instrumento – daria aí a deixa para a acústica ‘Favorite Girl’.





Um dos momentos mais constrangedores do show acontece, entretanto, durante ‘One Less Lonely Girl’, quando Justin convoca para o palco uma adolescente da platéia que permanece lá paralisada com um buquê de rosas em mãos, enquanto Bieber canta (dubla) para ela, que se sente a própria ‘Lonely Girl’. Percebo aqui a falta que faz para essa juventude umas boas palmadas na bunda pelos pais em casa...


A apresentação continua com ‘Never Say Never’ e, o que vem a seguir é ‘Down To Earth’ com Justin ao piano, em mais uma interpretação pavorosa. Mas é claro que quem presenciou o show não estava nem aí para isso, por estar com seus hormônios em ebulição durante o êxtase da apresentação.





Por fim, o maior sucesso do ídolo teen – 'Baby' – que, como a grande maioria do repertório foi interpretada em playback, só que com a impressionante redução em dois tons abaixo da gravação original. Um final apoteótico contando com uma chuva de papéis coloridos picados encerra a apresentação.  Dou graças a Deus pelo término e lamento pelos pais das mais de 60.000 crianças e adolescentes presentes no Morumbi, que vivem de uma cultura totalmente descartável e ainda se dispõem a pagar qualquer preço por isso. Triste, mas é a realidade...

Por Tiago Neves