quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Sertanejo: o universitário que não quer se formar


Na última semana, o mundo da música foi tomado de assalto por uma notícia até certo ponto inusitada: o suposto fim da dupla sertaneja Mirosmar e Welson, porém, mais conhecidos nacionalmente sob a alcunha de... Zezé Di Camargo & Luciano.


O suposto fim da dupla Zezé Di Camargo & Luciano foi um dos assuntos mais comentados da última semana.


Sem querer entrar no mérito da estupidez do cantor Luciano em se entupir de uma combinação de uísque, Rivotril e diuréticos, que resultou na internação do mesmo no dia seguinte do anúncio, a verdade é que esse anúncio não passa de uma grande jogada de marketing arquitetada pelos empresários “e$pertalhõe$” da dupla, que lançaram na mídia esta “bomba” unicamente para tentar colocar em evidência uma dupla já encoberta pela nova safra de cantores de um movimento denominado  como ‘sertanejo universitário’. Seria então o fim de uma das duplas sertanejas de maior sucesso comercial dos anos ’90? Já foi declarado pela dupla que eles não pretendem romper a parceria tão cedo...

Mas peraí...  ‘sertanejo universitário’, ‘duplas sertanejas’...  desde meados dos anos ’80 até os dias atuais somos soterrados por uma avalanche de cantores  que deveriam ter vergonha de se auto enquadrar em qualquer subgênero no qual contenha a palavra “sertanejo”. Salvo raríssimas exceções, o que ouvimos à exaustão nas rádios atualmente e a mais de duas décadas não passa de uma mescla de uma temática dor-de-corno sobre amores não correspondidos, além daqueles que não dizem absolutamente NADA - ou será que há alguma mensagem em refrãos como “tchê thererê tchê tchê... Gusttavo Lima e você” (arghh!) - tudo isso somado a um certo tempero pop com variações limitadas, que faz parecer que estamos ouvindo sempre a mesma música, cantado por (e para) gente que desconhece o que é a verdadeira música sertaneja. 


Gusttavo Lima e o seu infinito "Tche therere tche tche..."


A verdade é que o gênero, representado hoje por expoentes como Luan Santana, o já citado Gusttavo Lima, Jorge & Mateus, Guilherme & Santiago, Victor & Leo e outros menos cotados ganhou uma popularidade enorme nos últimos anos, trazendo para seus shows pessoas com as indumentárias próprias do estilo, como chapéus, camisas xadrez e botas de couro, porém com uma genuinidade de araque. Fãs adeptos do estilo que nunca entraram em uma fazenda ou pisaram em bosta de vaca na vida.


Alguns dos expoentes do chamado "Sertanejo Universitário"


Muitos têm usado o termo “pop sertanejo” para classificar a massificação desse estilo musical. Acho interessante essa definição, pois é isso mesmo que o sertanejo se tornou - música pop e descartável - que serve de trilha para playboys saírem à caça de patricinhas (e vice-versa) nos grandes eventos do gênero que acontecem por todo o país. Uma cena me vêm à mente agora -  fulano chegando em beltrana cantando-lhe ao pé do ouvido: “Delícia, delícia, assim você me mata... ai se eu te pego...” - por aí já percebe-se a futilidade que predomina nesses eventos. Qualquer semelhança com as famigeradas micaretas de axé não será mera coincidência...


Michel Teló: "Assim você me mata... de desgosto!"

É fato que a juventude de hoje não faz ideia do que seja a verdadeira musica sertaneja, aquela de raiz, criada na roça e tocada de uma maneira que nos faz sentir como se estivéssemos ouvindo o cantar dos bichos deitado em uma rede no conforto de uma fazenda, tocada por quem ainda mantém a tradição da moda de viola como Almir Sater, Pena Branca e Xavantinho, Roberto Corrêa, Paulo Freire, e muitos outros que também fazem música realmente com a alma e espírito sertanejo. Não conhece? pois deveria...

Se tudo o que ouvimos atualmente no estilo é considerado “Sertanejo Universitário”, espero sinceramente que eles se formem o mais rápido possível e dêem lugar à quem fez doutorado no estilo genuinamente sertanejo de se tocar, como os mestres citados nos vídeos que seguem abaixo...













Por Tiago Neves