terça-feira, 2 de setembro de 2014

Em Space Invader, Ace Frehley mostra porque ainda é o melhor músico do Kiss em atividade


Não é de hoje que sustento a afirmação assertiva que intitula essas linhas, mas sim desde 1977. Não que eu tenha nascido antes do ano em que Paul Daniel Frehley criou coragem, perdeu a vergonha e mostrou ao mundo que também sabia cantar e compor suas canções no KISS, debutando com a sensacional "Shock Me", uma das principais canções do clássico Love Gun, lançado pelo quarteto maquiado no ano em questão. Mas desde que a ouvi pela primeira vez, logo que descobri a banda (quase quarenta anos depois), tive no spaceman a personificação de meu ídolo, guitar hero e personagem favorito na banda.

Depois disso vieram os quatro discos solo, onde Frehley mais uma vez mostrou quem era o verdadeiro espírito rock and roll da banda (jogando pra escanteio os lançamentos farofentos dos "patrões" Gene Simmons e Paul Stanley) e lançou um trabalho que supera até mesmo alguns trabalhos assinados pela banda completa. Salvou a reputação já ameaçada do quarteto com suas autorias em Dynasty e Unmasked. Saiu e voltou por diversas vezes, e nesse intervalo tentou sustentar sua carreira solo com o Frehley's Comet nos anos 1980. Entre drogas, bebidas e troca de farpas com Paul e Gene, Ace recuperou sua sobriedade perdida em algum lugar de sua carreira irregular e após o mediano Anomaly, de 2009, o eterno homem do espaço volta à cena com Space Invader.

Confesso que fiquei ainda mais curioso em saber o que o guitarrista ainda tinha a mostrar ao mundo após o imbroglio envolvendo a participação dos membros originais no Rock and Roll Hall of Fame, no começo desse ano. E não me decepcionei. O que se ouve ao longo de suas doze novas músicas nada mais é do que um apanhado de tudo o que ele já lançou até aqui. E não há nada de errado nisso quando se trata de rock básico, com os solos que Frehley sabe tocar como ninguém. Ainda que mais próximo de sua fase oitentista do que de seu primeiro lançamento solo, ele mostra sem frescuras o estilo que marca suas composições desde sempre.

Ace conquista o ouvinte logo de cara com uma trinca inicial pra ninguém botar defeito - a faixa título, "Gimme a Feelin'" e a divertida "I Wanna Hold You". Com o jogo ganho, o guitarrista desfila uma sequência de riffs, acordes e performances vocais, que mesmo pecando em técnica (mas quem se importa?), ainda soam como o jovial e ainda magrelo guitarrista de tempos distantes, como se ele estivesse cantando pela primeira vez. Em alguns momentos, até se lembrando de que é eternamente o guitarrista da "banda mais quente do mundo", com canções que lembram seu trabalho com seu quarteto de origem. Frehley não mentiu em nenhum momento quando, em entrevistas, afirmou que sua voz ainda permenece intacta como nos tempos de juventude, mesmo após o consumo de quantidades nababescas de álcool e outras substâncias entorpecentes. E quem se importa se a questionável arte da capa foi criada por Ken Kelly, o mesmo artista que desenhou para o Kiss trabalhos como os de Destroyer (1976) e o mesmo Love Gun no qual o guitarrista resolveu cantar pela primeira vez?

Apesar de ser difícil mencionar um destaque em Space Invader - no qual o guitarrista tocou todos os instrumentos à exceção da bateria, que deixou a cargo de Matt Starr, arrisco dizer que "Past the Milky Way" é a melhor composição do trabalho, com estrutura de andamento cadenciado e solo marcante. A autobiográfica "The Joker" e o já tradicional final instrumental com "Starship", esse último regra nos trabalhos solo do spaceman, encerram um trabalho que mostra por si só ter mais relevância, feeling e honestidade do que os trabalhos atuais do Kiss, estes mais preocupados em lançar um disco que justifique suas turnês caça-níqueis voltadas para os mesmos clássicos do passado do que pelo prazer de tocar o bom rock and roll que Ace Frehley ainda não se esqueceu como se faz. Se você curte o último, não dê bola para quem tentou diminuir a irregular, mas ainda produtiva carreira do guitarrista, como os próprios Gene e Paul ainda tentam fazer. Apenas coloque pra tocar em alto volume, abra uma cerveja e ouça. Assim como eu, você não vai se arrepender.

Músicas:
01 - Space Invader
02 - Gimme a Feelin'
03 - I Wanna Hold You
04 - Change
05 - Toys
06 - Immortal Pleasures
07 - Inside The Vortex
08 - What Every Girl Wants
09 - Past the Milky Way
10 - Reckless
11 - The Joker
12 - Starship


Por Tiago Neves