sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Rock in Rio 2013 - memórias (parte 02 - 19/09: Alice in Chains, Ghost B.C., Metallica... e muito mais)


Enfim, chegou o grande dia, 19 de setembro.

No geral, nenhum dos outros dias não eram atraentes o suficiente de forma que valessem a pena meus esforços anteriores para ir. Juntando todas as atrações que talvez fossem interessantes, não teriam a expressividade de metade das bandas que eu ansiava ir nesse primeiro dia. Talvez Living Colour, no dia 13. Ou quem sabe The Offspring e Marky Ramone no dia 14. Absolutamente nada no dia 15, tampouco do dia 16 (nem mesmo o Bon Jovi, que há tempos caiu no meu desagrado, tanto em estúdio quanto em seus shows mornos). E quem sabe, Bruce Springsteen no dia 21, se eu curtisse seu som à época da forma que curto hoje.

Mas não, tinha que ser o dia 19. Para mim, o festival realmente começava neste dia. Mais do que qualquer outro dia e atração, havia a expectativa de ver a teatralidade e a magia da missa negra do Ghost B.C. ao vivo. E em cores (sim, o preto e o branco também são cores). Mais até do que o Metallica, nesse mesmo dia, com a mesma ansiedade que teria para ver o Iron Maiden, no domingo.

Tudo já estava devidamente alinhado para aproveitar da melhor forma possível esse dia e o dia 22, que também contarei em detalhes em um próximo texto. Consegui até mesmo três dias de folga no trabalho nos dias 19 para ir ao RiR, e os dias 20 e 23 para descansar. Tudo certo, vamos aos shows.

Embarquei sozinho as 07:15 para o Rio de Janeiro, com bermuda, camiseta preta e camisa xadrez. Não levei nada pra comer, mas sim dinheiro suficiente pra comprar alimentos na Cidade do Rock. Ingenuidade minha, pois já tinha ouvido relatos de pessoas sobre as edições passadas, e também sobre os dias anteriores dessa mesma edição a respeito do alto e abusivo preço dos alimentos lá dentro.

Desembarquei na Rodoviária Novo Rio por volta de 09:30, meu Riocard Primeira Classe estava marcado para as 11:00. Mas isso não foi nenhum problema quando constatei que poderia embarcar tranquilamente no primeiro ônibus da linha especial que aparecesse por lá. E foi o que eu fiz. Com tranquilidade, cheguei a Jacarepaguá da melhor e mais tranquila forma possível, sem problemas ou imprevistos.

Dentro do ônibus, cercado de jovens estereotipados com as indumentárias do estilo e o inevitável preto, me chamou a atenção a conversa de duas pessoas sentadas logo atrás de mim, trocando conhecimento sobre as bandas que tocariam logo mais. Uma delas, um paulista chamado Will, seria minha companhia durante todo o evento nesse dia.


Cheguei à Cidade do Rock por volta de 12:30, mas a abertura dos portões seria somente a partir das 14:00. Até lá, fiquei no meio da multidão, onde reencontrei Will, o tal paulista que estava sentado atrás de mim no ônibus. Conversamos e bebemos algunas cervejas enquanto não liberavam nossa entrada. Foi um bom negócio, pois apesar de ainda cara, a breja estava bem mais barata do lado de fora do evento - cinco reais em uma lata, contra os absurdos nove nos quisques espalhados pela Cidade do Rock, ou dez, comprando na mão dos ambulantes que circulavam por toda a área interna.

Eu e Will na espera da abertura dos portões

Já estava meio zoado quando entramos. Não havia lá muito tumulto, mas sim filas enormes nas quais aguardamos durante cerca de quarenta minutos para entrar. Após a revista da segurança na portaria, eu e o (agora amigo) Will corremos em busca de um bom lugar perto do palco secundário Sunset, onde sem muitos atrasos, começaram os primeiros shows.


A primeira atração foi recebida de forma fria por mim. Na verdade, por grande parte do público que começava a se formar em frente o palco também. Afinal, pouco (ou quase nada) sabia sobre a banda República, que tocou algumas de suas músicas apenas medianas (não me perguntem o nome de nenhuma, não me interessei em saber), esquentando o terreno para a atração seguinte, que começou a empolgar. Dr. Sin. Estava melhorando. Entrando em cena juntamente com a banda inicial e o renomado guitarrista Roy Z (Halford, Bruce Dickinson), já emendaram um cover bacana para "Breaking the Law", do Judas Priest, e mostrando seu poder de fogo e alegria em estar pela primeira vez no renomado festival, a banda do guitarrista Edu Ardanuy e dos irmãos Andria e Ivan Busic detonaram (no melhor sentido da expressão) com algumas de suas músicas mais conhecidas, incluindo "Fire" e deixando inexplicavelmente de fora seu maior sucesse "Futebol, Mulher e Rock and Roll", pedida à exaustão pela platéia em um número considerável a essa altura. O encerramento, com mais um cover - dessa vez tocado de forma fria e burocrática - se deu com o cover do cover do Van Halen "You Really Got Me".

A próxima banda nunca me chamou a atenção. Dessa vez, Edu Falaschi tentava a sorte com a banda Almah, após o fiasco de sua apresentação pavorosa com o Angra no mesmo festival dois anos antes. Não é o som que eu costumo ouvir com frequência, tampouco o da banda que se apresentou junto a eles, dos gaúchos do Hibria. Um heavy/power metal que passa longe daquilo que eu costumo ouvir nos meus fones de ouvido. Pouco me interessei pela apresentação à exceção dos bons riffs do guitarrista do Almah, Marcelo Barbosa, sendo assim, preferi me sentar no gramado e comer algumas bolachas (ah, paulistas) oferecidas pelo Will. Só me levantei quando, ainda sem acreditar, percebi que Edu cantava - a pedidos da garotada espinhenta - a música com a qual colaborou para a trilha de Cavaleiros do Zodíaco - "Pegasus Fantasy (Saint Seiya)". Apesar da apresentação competente dessa vez, Falaschi não perdeu a oportunidade de terminar o show como uma piada. Para piorar, juntamente com o Hibria, destroçaram o eterno clássico do Led Zeppelin "Rock and Roll". Podiam ter terminado de forma digna, mas não. Próximo!


Na sequência, outro artista o qual pouco me interesso, Sebastian Bach. Com um som mal regulado, uma voz idem, e intercalando seus melhores momentos dos tempos de Skid Row com suas músicas de carreira solo, o esganiçado Tião (como todos nós carinhosamente o chamamos por várias vezes), deixou a desejar mais uma vez, como se já não o fizesse em seus últimos lançamentos de estúdio. Para minha surpresa, Will - o agora amigo paulista - cantava cada canção a plenos pulmões. Junto a nós se juntou nesse momento Jefrei, um amigo de Will também de São Paulo que o procurava durante todo o tempo até enfim encontrá-lo, e cantar junto com ele sucessos como "I Remember You" e "18 and Life". Eu não via a hora daquele troço horroroso acabar, mas parece que eles curtiram bastante... credo!

Jeff, eu e Will no palco Sunset

A coisa começou realmente a ficar boa ao início da próxima atração. Rob Zombie, em um grande espetáculo visual, levava seu show de horrores ao Rio de Janeiro, com uma excelente banda capitaneada pelo guitarrista John 5, com seus principais sucessos e os de sua ex banda White Zombie. Eu não era lá um profundo conhecedor da carreira de Rob, mas confesso que depois dessa apresentação me bateu uma baita vontade de conhecê-lo melhor.


Lá pela metade da apresentação de Zombie, já se ouviam os primeiros sons do palco principal. E a primeira banda era ninguém menos que o Sepultura, que assim como em 2011, realizou uma apresentação em conjunto com o grupo francês Tambours du Bronx, agora merecidamente no palco Mundo. Preferi ficar para terminar de assistir ao Rob Zombie, afinal veria o Sepultura novamente no domingo. Mesmo assim, era impressionante a massa sonora que saiam dos alto falantes serem ouvidas (e sentidas) a certa distância, como estavam os dois palcos um do outro. Lá pela penúltima música, convenci Jeff e Will a irem comigo em direção ao palco principal, para enfim assistir a banda que mais haavia me motivado a estar ali naquele dia.


Assim como meus novos amigos paulistas, na verdade pouca gente realmente conhecia os suecos mascarados e misteriosos do Ghost. B.C. parecia que só eu, bem distante do gargarejo e por consequência do palco, conhecia a fundo seus Opus Eponymous e Infestissumam, seus dois excelentes primeiros trabalhos.

Exatamente às 20:30, ao som introdutório de "Masked Ball", seguida de "Infestissuman", não cabia em mim de ansiedade. Quando a banda entrou poderosa e imbatível no palco, gritei feito um louco, com olhar de desapovação dos meus amigos que definitivamente não se empolgaram com a missa negra dos suecos. E eis que surgiu imponente e soturno, o vocalista Papa Emeritus II, para o meu delírio... até que ele começou a cantar.

Tamanha foi a minha decepção ao perceber que aquela voz tão legal e afinada em estúdio, soava totalmente amadora ao vivo. Desafinava em vários trechos. Uma brochada total. Ao vivo, a banda que eu tanto admirava não era a mesma dos discos de estúdio. Impressionante. Apesar da banda soar competente, os vocais me decepcionaram por completo. Até que tentei me empolgar com as demais músicas tocadas na sequência, mas não deu. Assim como a grande maioria que respondeu com total indiferença à apresentação da banda, também fui aos poucos me aquietando. Lá pela quinta ou sexta música, desisti. No meio de "Year Zero", saí e fui a um dos congestionados mictórios espalhados pela Cidade do Rock para descarregar, e esperar ter sorte melhor nas próximas apresentações. Ainda voltei a tempo de assistir a última canção, "Monstrance Clock", e acabou. Talvez a enorme estrutura não fosse a adequada para esse tipo de apresentação teatral. Quem sabe eles tivessem empolgado mais se tivessem tocado no palco Sunset. Quem sabe. Apesar de muitos fãs acharem que o show foi sensacional, para mim não deu liga. Espero vê-los novamente um dia para apagar essa má primeira impressão ao vivo. A primeira, e que ficou.


Na sequência, Alice in Chains. Há pouco vinha acompanhando a carreira deles, e ouvindo bastante o (bom) último lançamento deles - The Devil Put Dinossaurs Here. Portanto, minhas expectativas para essa apresentação já eram as melhores possíveis, só que diferente da banda anterior, eles não decepcionaram. com a sua atmosfera densa e sem muito lero-lero, emendaram um sucesso atrás do outro. Tocando apenas "Hollow" de seu mais recente disco, toda a carreira desse expoente do grunge foi brevemente repassada ao longo de quase uma hora de show. Willian DuVall não decepcionou ao substituir o falecido Layne Staley, e os riffs sempre certeiros de Jerry Cantrell aliado a suas linhas vocais que complementam de forma perfeita a principal, me arrisco a dizer que o show do AIC foi o mais correto e certeiro da noite. Ah, impossível não pular junto com a galera ao som de "Man in The Box", seu principal sucesso.

Jerry Cantrell (Alice in Chains)
E ainda tinha mais. Metallica, apenas. Porém, eu já não tinha mais forças depois de tanto tempo em pé sustentado por cerveja quente caríssima e bolachas do Will. Apesar de ele e Jeff (e mais um pequeno grupo que se juntou a nós), aguardarem com toda empolgação a atração principal da noite, a essa altura do festival, eu já me encontrava agachado tentando acumular energia para levantar. Porém, todo cansaço se esvaiu ao surgir no telão as primeiras imagens tiradas do filme Três Homens em Conflito, e a introdução épica "The Ecstasy of Gold". Foi o suficiente pra chamar minha atenção e me trazer de volta à vida. A banda mostoru que não estava pra brincadeira desde o início, mandando a imbatível sequência com "Hit the Lights", seguida imediatamente por "Master of Puppets". 



Com o jogo ganho, a banda de San Francisco tocou seus clássicos mais do que manjados, mas que ninguém enjoa. Mas eu enjoei. De verdade. Ao som de "The Day That Never Comes", o estado real de meu corpo naquele momento se tornou evidente, não resisti e abaixei, passando mal. Vomitei, apesar de quem estava perto nem ter percebido, uma vez que estávamos bem distante do palco, e com um certo espaco para que eu pudesse desfrutar de meu momento "raul". Confesso que naquele momento, já não via a hora do Metallica terminar seu longo show. Não que estivesse ruim. Eu é que não resistiria mais por muito tempo mesmo. Realmente a banda fez uma apresentação acima de qualquer suspeita, e a cada labareda de fogo que se acendia no palco, podíamos sentir de onde estávamos o calor, e olha que realmente ficamos muito longe do palco.



Claro que ainda teria forças pra bangear ao som do bis com "Battery" e "Hit the Lights", que encerraram um dia inesquecível, e que não seria esquecido por nenhum dos mais de oitenta mil presentes naquele lugar, do qual todos saímos ao final da grande queima de fogos confraternizando boquiabertos e ainda perplexos por termos presenciado tantas bandas excelentes em apenas um dia. 

Bem próximo à Cidade do Rock, embarquei sem problema algum rumo à Rodoviária Novo Rio de volta pra casa. Mas não tão cedo, pois passei a noite na rodoviária até que o primeiro ônibus para Três Rios, às 07:15 da manhã saísse. Intercalando momentos de sono, com a preocupação de estar em um terminal tão perigoso, me vinha á mente deitado naquele chão frio cada momento vivido naquele dia como se fosse o último. Mas ainda não era, muito pelo contrário. Ainda voltaria no domingo, dia 22. Mas isso será contado em um próximo texto em breve por aqui...


Por Tiago Neves