segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Rock in Rio 2013 - memórias (parte final - 22/09: Slayer, Iron Maiden e o final perfeito para um festival inesquecível)


Domingo, 22 de setembro de 2013.

Já havia aprendido a lição no dia 19. Logo, comprei o máximo de alimentos que eu podia pra levar nesse dia. Bolos, biscoitos, sanduíches e frutas não faltariam dessa vez. Tudo pra não depender das praças de alimentação da Cidade do Rock com seus preços abusivos nos lanches. Realmente foi ingenuidade da minha parte (pra não dizer burrice) levar dinheiro na quinta pra desembolsar cerca de quinze reais em um "hambúrguer" (entenda pão com carne), dezoito reais em uma pizza brotinho, ou mesmo desessete reais em uma batata frita em cone com um copo de refrigerante. Todos os insumos necessários eu levaria comigo na mochila. E assim foi.

Nesse dia, eu saí um pouco mais tarde de casa. Embarquei 11:00 rumo ao Rio de Janeiro. Não haviam muitas atrações que me despertavam a atenção nesse dia. Pelo menos, não tantas quanto as que eu queria ver na quinta passada. Minhas expectativas se voltaram unicamente para duas bandas: Slayer e Iron Maiden. O que eu assistisse além disso seria um bônus de luxo.


Assim, cheguei à capital por volta de 13:00. Da mesma forma que quinta-feira, meu RioCard Primeira Classe estava marcado para bem mais tarde, mas mesmo assim embarquei no primeiro ônibus especial que apareceu, logo, cheguei a Jacarepaguá mais ou menos no horário da abertura dos portões, 14:00.


Porém, se no dia 19 a entrada foi demorada, mas não tumultuada, o mesmo não poderia dizer desse domingo. Afinal, era o dia do Maiden, né. Quase unanimidade nas camisetas estampadas na área de acesso, levei pouco mais de uma hora para finalmente conseguir entrar no festival. Sendo assim, perdi o show inteiro da primeira banda que se apresentou no palco Sunset - Andre Matos e Viper. Apesar de não ser lá muito fã do metal melódico que eles fazem, confesso que lamentei perder o show, pois algumas (poucas) boas músicas que me agradam do repertório de ambos.

Como já havia perdido o primeiro show mesmo, aproveitei por estar sozinho (reencontraria Jeff - um dos amigos paulistas que conheci no dia 19 - mais tarde) e resolvi conhecer melhor toda a àrea da Cidade do Rock, já que em minha ida anterior me dediquei exclusivamente aos shows dos palcos Sunset e Mundo. Andei pelo palco Street Dance, onde havia um concurso de dança pelo qual não me interessei muito, sendo assim, andei até o outro lado da Cidade do Rock, onde as coisas pareciam estar um pouco mais interessantes.

Fui então à Rock Street, com temática inspirada na Grâ-Bretanha, totalmente estilizada de forma que, por alguns minutos, me senti como se realmente estivesse andando por ruas inglesas dos anos 1960 e 1970. Muito legal mesmo! A cereja do bolo foi uma banda (da qual não me lembro o nome agora, desculpem) prestando um tributo aos Beatles... em axé! Ao contrário dos mais puristas, realmente achei bem bacana e, por alguns minutos, me diverti por lá com versões de músicas dos quatro cabeludos de Liverpool em ritmos baianos.


Por um instante, até pensei em ir até o parque de diversões. Mas mudei de ideia rapidamente, ao constatar que, assim como no dia 19, as filas eram enormes, com pessoas chegando a esperar até OITO HORAS para brincar em atrações como a tirolesa que atravessava o palco Mundo. Obviamente, não fui. Tinha objetivos bem definidos quando resolvi ir até o RiR, e com certeza entre eles não estavam passar em uma corda por cima da multidão, tudo isso patrocinado por uma marca de cerveja importada. Mantive o foco, e fui até a lojinha localizada na área central do festival para comprar alguns souvenirs de lembrança para mim e meu afilhado, João Pedro.

Como tudo por lá, os preços beiravam o absurdo em absolutamente todos os produtos, desde um simples chaveiro, até uma camiseta das bandas participantes do evento. Infelizmente, não resisti e paguei quarenta reais em uma camisa infantil do Rock in Rio para o João e absurdos CEM REAIS em uma camisa oficial do Iron Maiden pra mim. Cem reais. Só depois de ter pago o valor no caixa me dei conta do absurdo que eu fiz. Desembolsar cem dilmas em uma camisa simples com estampa da turnê Maiden England que a banda apresentaria logo mais. Me arrependi muito na hora, mas hoje, um ano depois olho pra camiseta no guarda roupa e lembro de todos os bons momentos que vivi naquele dia lá. Logo, valeu muito a pena. Não tente entender a cabeça de um fã compulsivo, como eu já fui há um ano atrás...

Feita a loucura, saí da loja. E, para minha surpresa, encontrei dois amigos de Três Rios circulando pelo evento. Guilherme "Lua" e Francisco, juntamente à Felipe, que não conhecia e que me foi apresentado naquele instante. Assim, na companhia dos três rumamos enfim ao Palco Sunset, para assistir aos bons shows que já estavam rolando por lá. Ao nosso encontro, Jefrei (ou Jeff) veio e se juntou a nós.

Eu, Guilherme, Francisco, Felipe e Jeff
Chegamos ao Sunset por volta das 16:30, onde já começava a destruição sonora doDestruction, juntamente com os gaúchos do  Krisiun. Não poderia ter chegado em melhor hora. Ao som de "Black Metal", cover do Venom, já chegamos bangeando. A partir daí, tocando uma pedrada atrás da outra, a catarse sonora das duas bandas se concretizava. Me arrisco dizer que foi o show mais brutal do palco Sunset. Certamente até do festival inteiro. Nesse clima de metal e em confraternização com os amigos, aguardamos pela próxima atração.


Nesse dia, certamente foi o que o palco secundário do Rock in Rio recebeu o maior número de expectadores. Sendo assim, com a área completamente tomada pelos fãs de metal, veio ao palco um dos maiores expoentes do metal alemão. Sem perder tempo, o Helloween já  entrou em campo tocando seu maior clássico. "Eagle Fly Free" já foi o suficiente pra fazer todos pularem e confraternizarem de uma forma que só o metal consegue. Todos juntos cantando a plenos pulmões o refrão: "together we fly again..." foi absolutamente emocionante, até pra mim, que não sou lá tão fã assim dos alemães. A voz poderosa de Andi Deris já não é mais a mesma há tempos, mas sua presença de palco e sua habilidade em transitar pelos varios timbres de sua extensão musical ainda são suficientes para garantir um excelente show. Melhor ainda com a união de um dos primeiros membros, o guitarrista e vocalista Kai Hansen, que injetou ainda mais gás à banda, e por consequência na platéia. a trinca final, com "Dr. Stein", "Future World" e "I Want Out". Demais!





Sentamos um pouco para lanchar e concentrar forças para a próxima atração, uma das que eu mais esperava nesse dia no palco Sunset. A união do Sepultura com Zé Ramalho, carinhosamente chamada por todos de "Zépultura". Um show que começou com o já esperado massacre da banda brasileira, com um repertório bem diferente do que apresentaram no palco principal três dias antes. Com o cover de "Da Lama ao Caos", da Nação Zumbi, e a sequência seguinte já contando com Zé Ramalho em todas as músicas, é impressionante como a voz do cantor e compositor Paraibano casou perfeitamente com o metal atônico e barulhento da banda de Andreas Kisser e cia., inclusive em músicas da própria banda, como "Rathamatta", e o final arrebatador com "Admirável Gado Novo", que encerrou a apresentação com chave de ouro e nos fazendo pensar como seria um disco de estúdio baseado nessa união.


Sem pestanejar, corremos para o palco Mundo, não sem antes ir ao banheiro para descarregar. No caminho, já ouvíamos o final do show do Kiara Rocks, que até ameaçou fazer um bom show, mas esbarrou na inexperência e na falta de um repertório adequado para se apresentar em um evento de tamanha importância. Não me entendam mal, eu até curti, ouvindo do outro lado do festival, a abertura deles com o cover do Motorhead "Ace of Spades", mas, ao que parece, a coisa degringolou em um excesso de covers e de convidados inexpressivos, como o ex Maiden Paul DiAnno e o ex Charlie Brown Jr. Marcão. Não vi o show, e agora, vendo os vídeos da apresentação, posso dizer que ainda bem que não o fiz.



Mas a próxima atração eu não perderia de jeito nenhum. E aos primeiros acordes de "World Painted Blood", já era perceptível que os norte americanos do Slayer não estavam pra brincadeira. com poucas palavras entre as músicas, Tom Araya emendava clássico em cima de clássico, e com o guitarrista do Exodus Gary Holt suprindo a vaga do recém falecido Jeff Hannemann, confesso que não senti a falta deste. Em cada espaço era visto uma rodinha punk, até mesmo bem próximo a nós, que mais uma vez ficamos bem atrás do tumulto localizado pelos bangers mais exaltados que se encontravam a frente. Eu mesmo não resisti, e na trinca final - um mini tributo a Hanneman ao som de "South of Heaven", "Raining Blood" e "Angel of Death", com suas imagens estampadas no telão - me joguei na rodinha mais próxima, trocando socos, chutes e pontapés "sadios" com toda uma turma de desconhecidos, e o mais legal, todos nos cumprimentando gentilmente no final. Tem coisas que só quem curte rock e metal entende, e essa é uma delas.


Em contrapartida, o grupo seguinte tinha meu total desprezo. Apesar da super produção no palco, o Avenged Sevenfold com seu som mezzo emocore, mezzo metal nunca fez minha cabeça. Ao contrário da molecada que confraternizava, e até se abraçava cantando músicas desprezíveis como "Nightmare", eu preferi aproveitar o tempo comendo, guardando minhas energias e zoando a criançada fã do "Aveia Setefolhas", pois o principal ainda estava por vir, finalmente. Nem vou perder tempo tentando relembrar essa pataquada. Não vale a pena.

Jovens confraternizando ao som de Avenged Sevenfold


Por volta de meia noite, já soavam nos PA's a característica música de introdução em todos os shows dessa banda. Como se fizesse parte do show, todos cantávamos a plenos pulmões o clássico do UFO, "Doctor, Doctor", já imaginando o que viria na sequência... como em toda a turnê "Maiden England", que viria ao Brasil neste único show relembrando a histórica série de shows com o mesmo nome de 1988, ouvíamos o playback  das primeiras falas do disco Seventh Son of a Seventh Son: "Seven deady sins, seven ways to win..." cantando como loucos, aos gritos em alguns momentos, eu ainda incrédulo. Sim, começava ali o show dos ingleses do Iron Maiden.



Me vinha à cabeça naquele momento que eu havia começado a gostar de rock assistindo de casa o épico show que a banda inglesa havia realizado há treze anos atrás. Como um final cíclico, lá estava eu ouvindo e cantando de cor todas as música, e me encantando com seu espetacular espetáculo (fui redundante, eu sei), que ainda que não tenha sido tão bom quanto suas apresentações anteriores, me fizeram repassar por toda a discografia da banda com músicas como "The Prisioner", "Phantom of The Opera", "Wasted Years" e "The Clairvoyant". Sem falar no momento mais esperado do show, a hora que o mascote Eddie entra no palco todo imponente e interage no palco com a banda. Não queria que aquele momento chegasse ao final, mas infelizmente a apresentação - e o festival - terminava aos últimos acordes de "Running Free".




Levei um tempo pra cair na realidade e sair para embarcar no ônibus que me levaria mais uma vez para dormir no chão frio da Rodoviária Novo Rio. Vim pensando nesses dias mágicos, maravilhosos, sensacionais. Quantos bons shows tive a oportunidade de presenciar. Praticamente todas as bandas que eu ansiava em assistir um dia, consegui ver em apenas dois dias. Chegando ao terminal, ainda não me caía a ficha, mais uma vez. Sem poder, nem querer dormir, me vi imaginando quando teria oportunidade semelhante novamente. Se bem que, em menos de um mês, eu iria realizar mais um sonho, voltando ao Rio para ver Megadeth e Black Sabbath. Mas a inevitável pergunta não saía da cabeça, analisando todas as edições do festival. Qual teria sido a melhor série de shows, se foi 1985, 1991, 2001, 2011 ou esta de 2013?  Já tinha a resposta na ponta da língua ao embarcar pela manhã de volta pra casa.

Obviamente foi esta última. Por que? Simples, porque eu estava lá. E pra mim isso já era o suficiente.


Por Tiago Neves