segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Os trinta anos de The Ultimate Sin, de Ozzy Osbourne




Certos discos, apesar de renegados pelos próprios criadores, conseguem transcender a barreira do tempo, seja pela sua qualidade musical, ou mesmo pela nostalgia de canções que marcaram uma época de nossas vidas.

The Ultimate Sin (1986), de Ozzy Osbourne é um desses discos, que tem um significado na vida deste que vos escreve pelos dois motivos acima. 

Completando hoje três décadas de seu lançamento, ele remete à uma época em que as pessoas ainda sentiam medo do madman, coisa cada vez mais rara nos anos que se sucederam sua longa e duradoura carreira. 

Este medo era reforçado por uma arte de capa que pode ser considerada uma das mais impactantes de toda sua extensa discografia, com o própio Ozzy na pele do sete-peles (desculpem-me o trocadilho), do capiroto, do demônio, do capeta ou da denominação satânica que for sua preferência.

A música, mais refinada, mais bem produzida e com um som completamente cristalino - bola dentro por conta da excelente produção de Ron Nevison, um dos melhores e mais requisitados produtores da segunda metade da década de 1980 - Ozzy apresentou um novo direcionamento músical, totalmente imerso no hard rock norte americano da época, inclusive em sua imagem, cada vez mais travestido com vestimentas luminosas, purpurina e maquiagens carregadas, incorporando o visual e a sonoridade glam à sua performance como nunca em sua carreira.

Obviamente, o velho madman não estava sozinho nessa empreitada. Após a morte prematura de Randy Rhoads em 1982, recrutou o jovem guitarrista de raízes orientais Jake E. Lee (ex-Mickey Ratt, o embrião do que futuramente seria conhecido somente como... Ratt), o qual ajudou a manter o prestígio do patrão no cenário musical após a trágica morte de seu antecessor.

Após sua razoável estreia em Bark at the Moon (1983), a parceria atingiu seu ápice em The Ultimate Sin, apresentando sua apuradíssima técnica nas nove pérolas deste último, trazendo uma homogeneidade e coesão até então inéditas, e que nunca mais se repetiu em sua carreira, independentemente da inquestionável qualidade musical de sua discografia.

Acompanhados pelo baterista Randy Castillo e pelo baixista Phill Soussan, a formação explode em energia na primitiva batida nos tambores de Castillo na introdução da faixa-título, que ganhou um hilário videoclipe com Ozzy personificando um empresário petroleiro e atormentado por suas visões de uma mulher que personificava o próprio pecado. Outro vídeo, tão hilário quanto, foi feito para "Lightning Strikes", trazendo a mesma mulher sendo capturada por um Ozzy gigante e quase inflável, de tão inchado e gordo que o madman se encontrava naqueles anos.

A acelerada "Secret Loser" mostra o vigor dessa formação, que ao vivo se mostraria ainda mais eficaz, não fossem os teclados que soterraram sua sonoridade (veja o bom ao vivo The Ultimate Ozzy, também de 1986 e entenda o que estou falando).

Apesar da coesão do todo, três canções merecem destaque absoluto neste trabalho: "Never", com seu complexo trabalho nas guitarras, traduzindo em essência o que foi o hard rock oitentista em técnica e feelling; a bela "Shot In the Dark", canção de maior sucesso do disco e que encerra esse excelente trabalho de forma majestosa e uma terceira canção, na minha opinião a obra mais sublime que já foi gravada por Ozzy.

Essencialmente um manifesto anti-guerra, "Killer of Giants", com sua introdução a cargo dos violões e guitarras com timbres limpos de Jake, se desenvolve numa variação rítmica que é um verdadeiro cartão de visitas de toda versatilidade técnica do guitarrista, com certeza deixando o finado Randy feliz pela acertada escolha de seu substituto, onde quer que ele esteja.

Apesar de todo o sucesso, Jake E. Lee resolveu cair fora logo após o término da bem sucedida turnê, alegando a loucura de trabalhar com um junkie Ozzy cada vez mais e mais mergulhado em idas e vindas pelo alcool e por todo tipo de droga possível, chegando até mesmo a cheirar carreiras de... formigas (!!) junto com os não menos lunáticos integrantes do Motley Crüe, na turnê conjunta da época.

Como dito antes, apesar do sucesso multiplatinado do disco à época de seu lançamento, o trabalho não sobreviveu ao tempo (pelo menos na cabeça de Ozzy), que tirando "Shot In The Dark", tocada em um show ou outro, praticamente esqueceu esse trabalho nos anos seguintes.

Celebremos então o 30º aniversário deste maravilhoso trabalho, ainda que desconhecido e/ou ignorado por grande parcela de seus fãs com o volume bem alto, e relembrando o quao boa foi essa fase de Ozzy Osbourne regada a muito glitter e rock farofa.