domingo, 20 de março de 2016

Show: Iron Maiden - Esplanada do Mineirão, Belo Horizonte - MG (19/03/2016)



(Fotos: Agência i7/Mineirão)

Com o perdão do trocadilho logo de cara, literalmente um belo horizonte com seu pôr do sol primoroso na Esplanada do Mineirão recebeu os mais de vinte mil fãs da lendária banda britânica Iron Maiden, sete anos depois sua última passagem pela capital mineira. A última aparição do sexteto em terras mineiras havia sido em 2009, durante a "Somewhere Back in Time Tour".

Promovendo o mais recente trabalho lançado, o Iron Maiden segue em terras brazucas em turnê do disco The Book Of Souls, lançado em setembro de 2015. O àlbum (duplo) pode ser considerado o mais consistente e relevante trabalho lançado pelo sexteto desde Brave New World (2000), disco de retorno da formação que conta com o vocalista Bruce Dickinson, recém recuperado de um câncer na língua, e do guitarrista Adrian Smith.

Todo o clima no ambiente em volta do palco do 7 a 1 indicava que seria mais uma noite gloriosa e de celebração entre os headbangers que circulavam de forma pacífica pelas ruas do entorno do estádio. Nem os preços abusivos de estacionamento do local, tampouco os ambulantes que vendiam camisas não oficiais e outros adereços para adornar os fãs geraram qualquer tipo de desconforto ou empecilho para o acesso ao local do show, que também ocorreu em calmaria e sem grandes filas.

Já no interior do local do evento, os fãs que aos poucos iam chegando se depararam com as barraquinhas de merchandise oficial do Iron Maiden, onde camisas da turnê eram vendidas por R$ 120,00. Obviamente, passei batido por elas. Inevitável foi escapar dos vendedores ambulantes da cerveja oficial do evento, onde um copo de água era vendido por incríveis cinco reais e a cerveja pelo dobro desse valor, esta servida em um copo customizado que valeria como souvenir para quem lá estivesse.

A ansiedade era grande para a apresentação principal, que seria antecedida pelos grupos The Raven Age e pelo thrash metal do Anthrax. Os fãs, ao primeiro sinal da passagem de som da primeira banda, logo se concentraram próximo ás grades da sempre abominável e segregatória "pista premium", chamada aqui de Budzone e também da pista comum, alguns metros atrás.

Exatamente às 18:50, dez minutos antes do horário programado, entrava no palco o grupo The Raven Age. Satisfazendo aos instintos nepotistas de Steve Harris (bem como aconteceu na turnê Somewhere Back In Time, com sua filha Laureen Harris), o grupo de metalcore de sua outra cria, o guitarrista George Harris entrava ao palco com sons pré-programados e um som que muito se assemelha ao grupo americano Avenged Sevenfold, agradando em cheio a molecada que assistia ansiosamente o conjunto. Seu setlist foi baseado no seu único lançamento, o EP auto intitulado de 2014. Ao som de "Angel In Disgrace" o grupo encerrava sua apresentação sob aplausos contidos, já na expectativa do próximo grupo de abertura.


Ás 19:50, os americanos do Anthrax começaram a incendiar a platéia com seu thrash oitentista. O conjunto menos relevante do chamado "Big Four" da bay área de São Francisco, promovendo seu último trabalho, o fraco e recém lançado For All Kings, apresentou uma sequência de clássicos pra ningúem botar defeito. O baterista Charlie Benante fez falta atrás do kit. Impedido judicialmente de sair dos Estados Unidos, ele foi substituido nessa turnê por Jon Dette. Restava então curtir e pular as tímidas rodas de mosh formadas em meio ao público com clássicos como "Caught In A Mosh", "Antisocial" e outras. Capitaneados pelo guitarrista e líder Scott Ian (que mandou um "thank you, Belo Horrorizonte") e com direito à um espacinho dentro do repertório para a inclusão do riff de "Refuse/Resist" da prata da casa, o Sepultura , o grupo esbanjou vigor e energia ao vivo, com Joe Belladonna surpreendentemente apresentando uma boa e empolgante performance vocal.


Muita ansiedade aguardando "Doctor, Doctor", a já tradicional música que antecede as apresentações do Maiden. E eis que, com quinze minutos de atraso, os primeiros acordes do clássico do UFO começaram a ecoar pelos alto falantes do local, e agitando como se a banda estivesse no palco os fãs pulavam, sabendo que esta marcaria o início de mais uma apresentação memorável.

O vídeo de abertura, com o Ed Force One sendo lançado do meio da mata pelo Eddie e seguido pelo clima da abertura de "If Eternity Should Fail", com a banda surgindo no palco após os versos iniciais da canção já indicavam que a banda entrava em campo com o jogo ganho em meio à platéia incendiada por todo o clima que o cenário proporcionara. O que já indicara uma noite perfeita se confirmaria ainda mais na segunda música, o grande hit de seu último trabalho, a empolgante "Speed of Light".


Estava tudo lá, entregue de bandeja logo de cara pelo conjunto: Bruce impecável em seus vocais e vestido com sua blusa de moletom que virou sua marca nessa tour, Janick Gers pulando incansávelmente empunhando uma guitarra Les Paul, um contido Dave Murray e Adrian Smith com a elegância e competência de sempre. Nas baquetas, apesar de escondido pela bateria, Nicko McBrain mantêm-se evidente em suas levadas de bateria surpreendentemente tocadas em um pedal simples, e conduzindo a tudo isso lá estava Steve Harris, cantando cada letra e apontando seu baixo tal qual uma metralhadora, disparando contra a platéia.


O setlist do Maiden já era sabido por todos que vinham informados sobre as outras apresentações da turnê. Assistindo ao show, percebe-se que a sequência toda faz sentido para o conceito e temática do show, por isso as duas músicas que o conjunto resgatou do passado, as excelentes "Children Of The Damned" e "Powerslave" são como a cereja do bolo de uma apresentação impecavelmente preparada em cada detalhe para fazer com que cada fã aproveite ao máximo a experiência de presenciar seus ídolos no palco.

O único ponto negativo no repertório da apresentação foi a inclusão de "The Red And The Black", com sua introdução de baixo e levada que se assemelha bem ao que foi feito pelo grupo na metade dos anos 90 em que contou com Blaze Bayley nos vocais. Dispensável ou substituível por qualquer outra canção do último disco.


O ápice do show, porém, viria logo após a excelente "Death Or Glory". A música que dá nome ao seu último disco, introduzida pelo violão de Janick Gers, transforma-se em um épico no palco onde a entrada do gigante Eddie e seu coração sendo arrancado de seu peito e lançado à platéia por Dickinson só abrilhantam ainda mais a performance do grupo.

Logo após, o já tradicional "best of" do grupo com "Hallowed Be Thy Name", a implacável  ao vivo "Fear Of The Dark" e "Iron Maiden", com a cabeça inflável do Eddie surgindo por trás do kit de bateria e a banda se retirando do palco para retornar gloriosamente para o encore.

E eis que surge um belzebu inflável no palco para profeciar a primeira música do bis. Sim, ela mesmo! "The Number Of The Beast", o maior clássico do conjunto era apresentada em meio a chamas e, assim como em todas as outras músicas, nenhuma alteração no tom original ou no andamento. Tudo praticamente como foi gravado, obviamente com a energia costumeira de suas apresentações ao vivo.

A penúltima música do show e um dos momentos mais marcantes do show foi olhar ao redor e ver os mais de vinte mil presentes se abraçando e confraternizando uns com os outros ao som de "Blood Brothers", coisa que somente este estilo consegue promover. Sem brigas ou confusões.

Para encerrar essa noite mágica, a banda voltou no tempo e com "Wasted Years", o grupo se despediu de Belo Horizonte, não sem antes contemplar um momento único: um cadeirante foi alçado no ar bem no meio do público, para surpresa de Bruce Dickinson, que emocionado, se voltou para o fã e disse "surfando em uma cadeira de rodas, eu nunca vi nada igual antes", e ainda completou ao final da música "você salvou o meu ano". Isto dito por alguém que com toda a força do mundo se recuperou recentemente de um câncer, não é para qualquer um.

Aos poucos, os fãs deixavam o local em êxtase e com a sensação de que mais uma página do livro das almas do Iron Maiden havia sido escrita e assinada com êxito pelos gritos de cada um dos presentes.

Mais uma noite memorável!