quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Os trinta anos de Somewhere In Time, meu portal de entrada no universo do Iron Maiden


O ano era 2002. Ainda dava meus primeiros passos no descobrimento desse novo estilo musical que estava começando a ouvir. Como todo adolescente da minha geração, fui iniciado nos caminhos do rock ouvindo bandas como Legião Urbana e Guns N' Roses. Cada vez mais interessado nesse tipo de som, e depois de tantas fitas K7 gravadas de amigos (sim, esse ainda era o formato de música que eu ouvia à época), era a hora de dar um passo além. Sim, estava decidido a comprar meu primeiro CD. Ainda não sabia qual seria, nem o impacto que ele teria na minha vida pelos anos seguintes.

Ao passar por uma das únicas lojas que vendiam discos originais em minha cidade natal, me deparei com alguns CD's expostos de uma certa banda chamada Iron Maiden. Conhecia um pouco o grupo após a sensacional apresentação deles no Rock In Rio do ano anterior, e também tinha gravado em fita K7 o último lançamento deles - Brave New World. Após admirar por alguns longos minutos a vitrine com tantas capas magníficas, me chamou a atenção em especial a que contava com uma certa ilustração que continha um cyborg monstruoso em sua capa, criada por Derek Riggs, além de recheada de vários outros detalhes futuristas e ao mesmo tempo fazendo citando apologias ao passado da banda, que eu viria a descobris aos poucos nos anos seguintes.

Não pensei duas vezes. Comprei na hora o esse disco com a capa mais bela da vitrine, chamado Somewhere In Time. Paguei caro. Na época era quase quarenta reais o disquinho simples, com faixa multimídia. Hoje acharia um absurdo pagar por esse valor, mas pra um jovem adentrando na vida adulta, pouco importava o preço, só queria chegar em casa e apreciar esse disco, imaginando que se a música fosse tão legal quanto sua capa, estava levando uma verdadeira obra-prima para minha residência, e justificando seu alto valor.

E era.

Muito melhor do que poderia imaginar, e tão interessante quanto o pouco que eu já conhecia da banda. Desde os primeiros acordes de "Caught Somewhere In Time", não tive dúvidas que estaria ouvindo o melhor disco que eu já tinha conhecido até então. Na verdade, até hoje ainda sustento essa opinião. Coincidentemente lançado no mesmo ano do meu nascimento (1986), o trabalho mostra uma evolução em relação a sonoridade apresentada pela banda em seu trabalho anterior - Powerslave (1985). Com um clima futurista, altamente influenciado pelo filme Blade Runner - o grande blockbuster da época - Somewhere In Time apresenta pela primeira vez a inclusão dos tão polêmicos sintetizadores, que causaram a torção de muitos narizes dos fãs mais ferrenhos à época. Hoje renegado quase que por completo pela banda, à exceção de algumas músicas tocadas na turnê que relembrou os "Wasted Years" dessa época, na Somewhere Back In Time, e a inclusão da música de mesmo nome encerrando o setlist da mais recente turnê, The Book of Souls Tour, a banda praticamente não possui registros ao vivo de qualidade dessa época (segundo Steve Harris, um de seus maiores arrependimentos), que contou com uma das melhores e mais caras produções de palco, com direito a bateria alçada aos ares pela cabeça inflada do tal cyborg da capa (que descobri algum tempo depois que se tratava de uma das reencarnações de Eddie, o mascote da banda). Com um jogo de luzes em profusão à altura do espetáculo futurista, roupas chamativas - destaque para a vestimenta luminosa do vocalista Bruce Dickinson, seria absolutamente fantástico um registro ao vivo dessa época, porém infelizmente ficamos restritos aos poucos bootlegs espalhados aí pela internet.

Ainda sobre o disco - que contou mais uma vez com a produção sempre certeira de Martin Birch - é inevitável mencionar a sonoridade característica da banda, com a inclusão levemente de elementos mais "comerciais" a este trabalho, claramente influenciado pelo hard rock americanizado que era executado à exaustão nessa época nas rádios, o qual podemos constatar na sensacional "Stranger In a Strange Land", e em várias passagens de outras composições. Assim como seu antecessor, Somewhere In Time também foi composto e gravado em Nassau, nas Bahamas, e também em Hilversun, na Holanda. Dessa vez, o líder soberano Harris não estava sozinho à frente das composições, que contaram em grande parte com o brilhantismo do guitarrista Adrian Smith. Autor principal de três das oito músicas do disco, Smith direcionava cada vez mais o som para caminhos mais melódicos, tão intenso em peso quanto os trabalhos anteriores, mas com uma sonoridade mais limpa e cristalina. As composições de Dickinson, que desde sua entrada na banda e até Powerlave ainda apareciam com alguma frequência, não foram utilizadas neste disco, uma das frustrações do vocalista e que viriam a culminar no lançamento de seu primeiro disco solo, Tattoed Millionaire, lançado quatro anos depois.

               

Bem como sugere o título, Somewhere in Time é realmente uma viagem perdida no tempo, através dos séculos, culminando na épica "Alexander The Great", contando a história de um dos mais célebres conquistadores do mundo antigo, o Rei Alexandre (o Grande) Magno da Macedônia. Com passagens memoráveis como as de "Heaven Can Wait", que ao vivo tem o seus "ôôô's" cantados por toda a equipe de roadies da banda subindo ao palco, todas as composições apresentam uma coesão impressionante, tornando esse trabalho um dos mais homogêneos de toda a vasta discografia da donzela.

Somewhere in Time foi o meu primeiro disco comprado. E foi minha porta de entrada para a discografia dessa que é uma das minhas bandas favoritas desde sempre. Até hoje considero suas oito faixas e seus pouco mais de cinquenta minutos de duração como alguns dos melhores momentos registrados em estúdio pela banda. O valor nostálgico e qualitativo desse disco, que hoje pode até certo ponto soar datado, é bem maior do que o preço pago pelo mesmo.

Aproveitemos então esta data especial e façamos uma viagem no tempo - mais especificamente há trinta anos atrás - relembrando estas canções tão especiais, e espaciais - por que não?

(texto editado, originalmente publicado no blog em 29 de setembro de 2014)






Por Tiago Neves